Oitavo Andar
O elevador parou no oitavo com um BING que o remeteu a velhos filmes de Humphrey Bogart e Audrey Hepburn.
Saiu com seu passo largo e parou no meio do amplo corredor de paredes cobertas de tapecarias inglesas. A decoracao piorava a medida que subia.
Olhou para um lado do corredor. Ninguém. Fitou o outro, viu uma porta aberta. Seguiu ate a porta.
Entrou abaixando seu chapeu. O olhar determinado. Dois cabos abriram espaço pra ele passar. O mais baixo deles apontou o quarto do dedo e tornou de volta a conversa. Parou um instante observando o que tinha indicado o quarto. Percebeu sua camisa mal passada, a calca de sua bainha suja e seu sapato de servico sujo e usado. Irritou-se. Donde viera, aquilo era inadmissivel, mas por outro lado, ele estava no Brasil. Era verdade, pensara, o calor do Brasil era relaxante. Malemolente.
Conversou um instante com os dois cabos. Acessou a situação como sempre fazia. Muitas vezes a opinião do cabo eh mais importante que a das testemunhas. Toda cena de crime tem um ar, um cheiro, algo distinto que as vezes apenas novatos captam.
“E ai, o que que vocês acham?” perguntou seriamente enquanto fixava os botoes nao fechados do colarinho do primeiro.
“Rapaz, sei não, mas ta cheirando historia de corno” respondeu o segundo, menos alto porem mais arrumado, dando uma risada sacana. Cutucou seu parceiro rindo enquanto procurava um sorriso no Benjamim.
Benjamim fechou a cara. Não gostara do jeito do cabo. Alem disso nunca tolerara traição. Odiava estar envolvido em historias de traição. Para ele, o pior do homem era trair outro homem. Seus anos o haviam ensinado isso. Um conceito de Honra. Um conceito de moralidade.
Saiu deixando os dois falando. Aqueles ali, não prestavam. Passara para a sala. Os dois policiais se entreolharam quase que confirmando, pelo olhar, a fama do detetive. Era conhecido por ser esquentado e estranho. Segundo as mas linguas, certa vez ele tinha espancado um menino de rua por ter afagado a bunda de sua mulher. A furia foi tanta que o menino foi internado no hospital Sirio-Libanes. Os dois cochichavam ainda quando o detetive sentou-se do lado da moca chorando na sala.
Tirou um lenco do seu bolso de tras da calca e entregou a moca. Ainda nao ia conversar com ela. Tinha de se inteirar da situacao. Levantou e passou para o quarto.
Parou na porta. Observava os arredores.
Havia ali varios quadros tortos. Deduziu corretamente que eram acostumados com arte. Somente pessoas que vivem com arte deixam seus quadros tortos. A altura estava boa, o alinhamento perfeito, eram sem duvida conhecedores. Desleixado, certo, mas conhecedores.
O apartamento era bem decorado, se bem com um ar decadente de falta de dinheiro. Mas o que realmente o incomodava era o vermelho. O sofa vermelho onde a moca chorava. A parede vermelha do quarto. Um vermelho forte, um vermelho sangue.
Um corpo branco e palido na cama. Homem Caucasiano. Por volta dos cinquenta. Som. Tocava um tango de Gardel em tilt. Em loop. Ninguem parecia se importar.
Por una Cabeza. Por una Cabeza.Por una Cabeza.
Ele olhara em volta para ver se alguem se importava. Ninguem parecia escutar. Nem o fotografo que tirava fotos do corpo estendido na cama de jacaranda, nem o cabo que parecia estar ajustando a meia ao lado da cama.
Parou um instante e absorveu a voz de Carlos Gardel. Tinham bom gosto, mas estava alto e estava em loop. Precisava se concentrar. Estava cansado. Queria terminar logo.
“Alguem desliga essa merda” disse quase gritando
O som parou. O fotografo o olhou com um sorriso e balançou a cabeça querendo aprovação. Um sinal, aguardava algo em retorno. Balançou a cabeça de volta. Maldita sociedade em que todos necessitam de afirmacão, de segurança.
Fixava agora o cabo que ainda mexia no seu pe. Aproximou-se dele e deu um tapinha em suas costas. O negao meia noite se ergueu e fitou o detetive.
“Sim?” indagou com uma voz grossa e profunda
“Saia daqui!” disse secamente com seus dentes serrados
O negao, que fazia entorno de um metro e noventa de altura com ombros largos e bracos fortes, olhou Benjamim longamente. Não entendia o porque daquilo mas tinha ouvido dizer que aquele detetive era doido e ousado. Ele imediatamente serrou seus imensos punhos e iniciou uma frase.
“Nem pense…” interrompeu o detetive agora o olhando diretamente no olho.
“Saia daqui agora!” prosseguiu secamente
O negao olhou para o fotografo, que balancava sua cabeca em sinal de não, e fitou Benjamim mais uma vez. Benjamim rapidamente apontou para a porta e indicou o fotografo. Discretamente, o fotografo indicava para o cabo ir embora. O negao olhou uma ultima vez para o fotografo e pediu licensa gentilmente. Tinha feito a boa decisao.
“Boa escolha miseravao” Benjamim disse enquanto sorria tensamente. Seguiu o negao herculeo dos olhos ateh sair do quarto.
Respirou fundo. Tinha que se concentrar. Tinha que parar de devanear. Aquilo era seu elemento. Aquilo era seu reino. A morte. A cena. O crime.
Os lábios azuis do macho caucasiano na cama. Talvez sufocado. Quase certo.
“Padilha!” gritou
“Opa,” veio uma voz de um banheiro a direita, e logo aparaceu o Padilha. Padilha era o legista de plantão. Não era bom. Mas era o único que tinham. Figura magra e alta com cabelos longos presos em um rabo de cavalo. Era um bom homem, mas pouco competente. Feio. Porem, o verdadeiro problema do Padilha não era esse. O problema do Padilha era a barba.
“Opa Benjamim!” disse o Padilha enquanto estendia a mão com um sorriso
Foi ignorado.
Nunca iria apertar a mão do Padilha, não enquanto ele não raspasse aquela barba. O Padilha sabia. Sabia que o Benjamim nunca apertava sua mão. Mas ele nunca foi desagradável tao pouco. Era mais um jogo para os dois, do que uma verdadeira animosidade. Ou ao menos, assim pensava o Luis Fernando Padilha.
“Qual o caso Padilha? Sufocação?” perguntou diretamente ao assunto. Não conseguia tirar os olhos dos fios sujos da barba do Padilha. Irritado, tentava olhar outra coisa mas não conseguia.
“ Sim, sim. Tipico caso de mulher infeliz, mata o marido e depois se corta os pulsos.” respondeu o Padilha com sua voz estridente.
Tipico caso. Tipico caso? Não se acostumara como todos falavam da morte de dois seres humanos. Apesar de tudo que a vida tinha jogado na sua cara, era, e sempre fora um humanista. Como um tolo, ainda acreditara no homem, na bondade, em Rousseau. Ele já havia visto o mundo pelo lado mais sombrio. A vida já havia jogado todos os seus demônios no seu peito, e ele havia rebatido todos. Um a um. Todos. Com seu estoicismo, seu determinismo. A vida era uma batalha. O saldo positivo dependia da vitoria ou da derrota diante dos obstáculos diários. Padilha, por exemplo, era um derrotista. Era o lado sombrio que a vida entristeceu e amargou.
Coçou a cabeça. Era seu refugio. Sua maneira de pensar. Deu um tapinha no ombro do Padilha. O pensamento o tinha acalmado. Gostava do Padilha, la no fundo, gostava.
Passou por ele. Adentrou o banheiro. Parou na porta. Era de Praxe.
- (Uppado nas coxas – Ja ja corrijo mais completamente)
Isso dito, reescrevi as partes 1 e 2 com muitas diferencas. Se ainda nao leu,melhor ainda! Check it Out!