Era madrugada, a chuva caia no vidro da janela. Janela da cobertura que tanto trabalhei para comprar. Tomava meu uísquecom duas pedras de gelo como sempre sonhara fazer. Escutava uma música cada vez mais animado, ao contrario de mim. Abri a carteira tirei 150 a mais do era o preço. Merecia, não tinha marcado a hora e ela tinha perdido a aula.“Quarta que vem no mesmo horário.” Não precisaria pagar a mais. Acendi um cigarro e coloquei mais uma dose de uísque.
Como tudo isso era gratificante.
Andei pela casa, TV, computadores, som, esculturas, quadros, livros. Paris, Milão, Roma, Vegas… . O mundo na minha sala. Mais um cigarro.
Como tudo isso era bom.
Toca o celular.
“Alô… sei… mas… não… tudo bem. Tchau.”
Não tinha paciência para telefones, nunca tive. A chuva ainda caia e a fome apertava. Na cozinha uma sobra do jantar. Microondas. Dava para esperar até o café de Dona Margarida.
Um telefonema. Sabia que estava viajando, mas pensei que estivesse no Rio com sua irmã. Não ficaria irritado por não vim esse fim de semana. Ficaria até feliz. Comida, bebidas, cigarros, música, chuva, madrugada, sozinho.
Tudo tava tão bom.
Mais um cigarro e uma dose de uísque até chegar ao quarto. Uma suíte maior que meu apartamento na infância. No closet, curioso como sempre, mexi na parte do guarda-roupa reservado para ela. Uma caixa. A caixa de um presente dado, não sei quando muito menos o motivo. Abri. Ursinho de pelúcia, fotos, muitas fotos. De amigas, amigos, família, fotos minha, sua, nossa. Fotos recentes, antigas, principalmente da nossa adolescência. Cartas que não lembrava de ter escrito, bilhetes que não recordo ter lidos. Fui para cama, ainda arrumada, com aquela pesada caixa. Esparramei-a toda na cama.
Ria as fotos, dos bilhetes, das cartas, cartões postais… Tinha tudo. Entrada de cinema, de shows, teatros, cartão de viagens, embalagens de bombons… Uma agenda, mais parecida com um diário, do nosso primeiro ano de namoro. Tinha 16 e ela 14 anos apenas.
“Não sei se esse beijo foi apenas mais um ou se foi o inicio de algo maior…”.
“… tenho que ser mais rígida, quem ele pensa…”.
“Hoje foi perfeito!”
“A Marta disse que doeria, mas foi tão maravilhoso. Um frescor de enlouquecer na barriga que gostaria de repetir muitas vezes.”
Não me admira saber que ela era tão meiga tão menina. Algo muito difícil naquele tempo, e hoje nem se fala. Foi por isso que me encantei e me apaixonei. O inicio foi tão perfeito. Descobertas, conquistas, brigas, verdades. Eu apresentei a música, ela o cinema, juntos descobrimos a literatura, pintura, filosofia e também, juntos, concluímos que a TV manda no mundo e que sem ela o mundo seria tão sem graça.
Tivemos empecilhos, falta de apoio, barreiras. Talvez ela mais do que eu. Eu era um plebeu ela uma nobre. Mas como valeu a pena.

Adorava sua pele, seu cabelo, seu sorriso de céu de reveillon, seu caminhar, seus pés, mãos. Nossa como eu amo tudo isso! Como é linda! Como é belo seu jeito de falar, pensar, agir, argumentar. E o espaguete! Uma mulher ideal.
Por que não vem logo de onde estar? Por que não irei ao me encontrar com minha amada?
Não queremos nos decepcionar. Ela me ama. Eu a amo. Não vale a pena chorar.
Ta tudo tão bom.
Tudo tão gratificante.
R. Mota